Publicado em 4 de abril de 2012 em Da redação
De geração para geração e o direito ao lúdico
No meio do turbilhão de imagens, campanhas e apelos que são compartilhados atualmente na rede social da vez, encontramos algumas de gosto bastante duvidoso, outras repletas de preconceito e discriminação e umas simplesmente chatas e desprovidas de graça. Contudo, recentemente, circulou uma fotografia de uma planta e brincadeira que povoou a infância de muitos de nós. E a autora deste texto não passou ilesa à onda de reminiscências e comentários saudosistas que a tal figura despertou.
A primeira vez que a vi, estava em Rio Novo, cidade localizada no sul do estado de Minas Gerais. Devia ter por volta dos sete anos. Caminhava com meu pai por uma trilha de terra, no meio do mato. De repente, ele viu alguma coisa e se abaixou. Era uma planta rasteira, com folhas miúdas formada de pequenas folhinhas menores e flores cor de rosa. Ele estendeu a mão e tocou numa delas, dizendo: “Fecha, Catita!” E a magia aconteceu.
Encantada, vi as folhinhas se fecharem lentamente, como se a planta tivesse vida própria ou algo invisível provocasse o movimento. Papai repetiu o gesto e as palavras. Foi a senha para que eu o copiasse. E logo tratei de por todas as Catitas para dormir, só parando quando não havia mais nenhuma delas aberta. Impaciente, perguntei quando elas acordariam. “Depois elas se abrem novamente”, ele respondeu tranquilamente.
Muitas vezes depois disso, em diversos lugares e estados, me reencontrei com a lúdica dormideira. E mesmo depois de ter me tornado uma “adulta racional”, nunca deixei de fechá-las, sempre pronunciando as palavrinhas mágicas que dão um toque especial à coisa. Como meu pai, ensinei a brincadeira para muitas crianças, cumprindo natural e divertidamente o meu papel de disseminadora da cultura popular.
Mas faz tempo que não vejo uma dessas plantinhas e a fotografia despertou em mim enorme saudade, uma necessidade premente de topar com uma Catita por aí e, desde então, tenho andado, em vão, olhando para o chão em busca de uma. Enquanto não acontece o desejado reencontro, sigo o velho ditado “se não tem tu, vai tu mesmo” e recorro ao Google para, ao menos, amenizar a nostalgia.
Descubro tratar-se da Mimosa pudica L., pequeno arbusto perene da família das leguminosas, aparentada com a ervilha. É originária da América tropical, reproduzindo-se através de sementes. Numa pesquisa não muito extensa, pude localizar registros no Brasil, Mèxico, Estados Unidos (Flórida, Virgínia e Havaí) [1], Américas Central e do Sul, Filipinas [2], China, Austrália e em países do Oeste da África [3]. Parece que está por toda parte.
Pode ser considerada planta daninha [4], pois infesta as plantações, competindo, na região amazônica, com as pastagens de gado. Mas desde quando aquele é local adequado para esse tipo de criação?
Pois o que é considerado praga por uns possui diversas propriedades medicinais. É antioxidante, cicatrizante, anticonvulsiva, expectorante, antiasmática, sedativa, dentre outros usos atestados não só pela sabedoria popular como através de estudos laboratoriais. Portanto, um pouco mais de respeito por ela, por favor.
Mas o assunto ganha contorno especial quando passamos aos nomes populares, onde sobrevem uma abundância de criatividade e poesia. No Brasil é a maria-fecha-a-porta, maria-dormideira, dorme-dorme, dormideira, sensitiva, não-me-toque, arranhadeira, malícia. Não encontrei o nome empregado por meu pai: Catita. Será que só ele a chamava assim? Um amigo, com razão, comentou que outro bom nome seria fechadeira. Mas desconheço esta denominação.
Em inglês, tem os nomes de bashful mimosa, humble plant, sensitive plant, sleeping grass, tickle-me plant, touch-me-not, modest princess e… shame plant. Vergonha de que, Maria? Deixa disso. Em países de língua castelhana é a morí-viví (eu morri, eu vivi) ou dormilona. Em língua francesa é a marie-honte, herbe mamzelle, honteuse femelle nas Antilhas e em Reunião, departamento francês a leste de Madagascar, é denominada sensitive ou trompe la mort. Nas Filipinas, makahiya, muito tímida. Em Tonga, é a mateloi (morte falsa). Na Malásia, pokok semalu, planta tímida. Em Mianmar, chama-se hti ka yoan, que significa “se desfaz quando tocou”.
Decerto, há de receber muito mais denominações poéticas e criativas em outras partes do planeta.
Não só os nomes variam. Também são diversas as palavras para a invocação de sua “magia fechatória”. Além da já mencionada “Fecha, Catita”, me foram citadas: “Fecha, Maria, que o boi já vem”, “Dormideira, fecha a porta que eu vou dormir” e o versinho:
Dorme, dorme, dormideira
Pra acordar na (dizia-se um dia da semana terminado em feira)
Quantas outras devem existir e estão perdidas ou esquecidas por aí? Deixo aqui um apelo: se você conhece alguma delas, diga nos comentários ou escreva para nós informando.
O saudosismo, pelo jeito, não é exclusividade minha. Quase todos os que comentaram a imagem no Facebook, empregaram os verbos no passado: “fazia”, “adorava”, “brincava”, “dizia” e por aí vai. Será que as crianças de hoje em dia não conhecem a dormideira? Isto seria, sem dúvida, uma lástima.
No entanto, como pude atestar, até mesmo alguns adultos filhos das megalópoles sudestinas nunca presenciaram o sono da plantinha. Então, ficam aqui dois vídeos disponíveis no Youtube, para saciar a curiosidade dos inexperientes e alimentar as lembranças dos saudosistas. Não! Não se trata de mágica e sim de um sistema natural de defesa contra predadores, dizem os cientistas. Porém, ao ver as cenas, evite as expressões de espanto e fascínio quem for capaz:
• Dormideira, uma planta reativa
http://www.youtube.com/watch?v=S9zseSvLM4k
• Pontociência: Maria-fecha-a-porta
http://www.youtube.com/watch?v=lsRXBBB6Nfk
No entanto, o bom mesmo é ver o milagre ao vivo, de preferência acompanhado por uma ou mais crianças, invocando as palavrinhas de efeito. Compartilhar, brincar, encantar e transmitir conhecimentos de gerações para gerações. Os tempos contemporâneos, com a indústria do medo [5] e a realidade virtual, tornam as brincadeiras cada vez mais individualizadas, solitárias e distanciadas do contato direto com a natureza. E em era de valorização da educação ambiental, não seria a dormideira uma excelente metáfora para se ensinar que a natureza é viva? Mas será que ainda há espaço para o lúdico no universo infantil ou mesmo dentro de nós, adultos?
Glaucia Santos Garcia
abril de 2012
Referências
1. United States Department of Agriculture – Natural Resources Conservation Service: Plants Database
http://plants.usda.gov/java/profile?symbol=MIPU8
2. Stuart Xchange: Phillipine Medicinal Plants
http://www.stuartxchange.com/Makahiya.html
3. West Africa plants: A photo guide
http://www.westafricanplants.senckenberg.de/root/index.php?page_id=14&species=2528
4. Guia de identificação de plantas daninhas
http://www.plantasdaninhasonline.com.br/sensitiva/sensitiva.htm
5. Sobre o tema, ver entrevista de Eduardo Galeano ao La Imprensa, abril de 2012, disponível em http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/04/eduardo-galeano-lanca-novo-livro-e-afirma-fomos-treinados-para-ter-medo-de-tudo.html. “Muitos políticos no mundo inteiro, não é algo que passa somente em nosso país, exploram um tipo de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem de vê-lo como uma promessa, ou seja, o próximo, esse senhor, essa senhora que anda por aí, pode roubar-te, sequestrar-te, enganar-te, mentir para você, raramente oferecer-te algo que valha a pena receber.”



Prezada Glaucia,
(Redescobri hoje o JangadaBrasil, que pensava desativado há anos.)
Explorando o site, descobri sua contribuição. Que maravilha de lembranças, exposição e pesquisa!
Agradecido
Fernando (hoje na Paraíba, com filhos que estão aprendendo (como eu) a botânica, a filologia, o folclore e a pura diversão…)
Aqui temos muitaaa.
Estou até colhendo sementes para doar para amigos virtuais do meu Orkut de troca de sementes.
Bjuuus
Olá!
Achei muito interessante a reportagem. Moro no Paraná, região sul do país, e nós, quando crianças apretávamos um bago de uma florzinha que se abria, espalhando suas sementes. Era pura diversão!