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Lobizome

Valter Spalding

Guardamos em nossa memória, figura do velho Bastião que víamos quase que diariamente durante nossa infância e meninice, entre 1901 e 1915, nas minas de carvão de Arroio dos Ratos, em São Jerônimo. Era um velho de barbas pardacentas, ao que nos lembramos, ou branco-sujo, de grandes olhos empapuçados, talvez pelo hábito da bebida, pois gostava de um traguito a qualquer hora, aspecto geral de meter medo às crianças. Vivia por assim dizer isolado, pois ninguém a ele se chegava… por temor. Diziam que, às sextas-feiras virava lobisome. E quando, altas horas daquelas noites, principalmente na madrugada (de quinta para sexta-feira), a cachorrada começava a latir desesperadamente — diziam:

— É o Bastião-Lobizome que está passando.

E as velhas e crédulas se benziam e rezavam por alma do infeliz… ainda vivo, para que ao morrer já tivesse alívio.

Mas o curioso era que, na realidade, durante o dia de sexta-feira, Bastião não aparecia no bolicho ou no armazém… Propositadamente, para confirmar a lenda?… Quem sabe, pois, por pena, todos lhe davam gêneros alimentícios de presente e, com isso, não trabalhava. Tinha de tudo sem esforço. E curioso também era que ninguém lhe dava comida pronta porque, diziam, não era bom: podia atrair o “lobizomismo” sobre a cozinheira. E, mesmo para que se afastasse o mais depressa possível e não ficasse pelas portas, comendo.

Várias coisas contavam a respeito do velho Bastião, mas só nos recordamos da mais corrente e que, na época melhor compreendíamos: que ele era o sétimo filho homem de um casal. Sétimo e último. Por isso o mau fado lhe ficou…

Não sabemos que fim teria levado, pois quando deixamos o pago de nascimento, ainda vivia, forte e rijo. Depois, nunca mais ouvimos falar nele e, mesmo, porque somente voltamos à terra quarenta anos mais tarde! Tudo estava modificado e ninguém mais vivia ali, dos nossos conhecidos e companheiros de infância e das aulas de dona Candoca.

Recordamos, agora, esta figura do velho Bastião ao ler na revista Insulana, de Ponta Delgada (v.14, primeiro semestre de 1958), uma carta de Bernardo do Canto, datada de 16 de junho de 1858, em que falava de um tio, Miguel do Canto, cheio de manias e que… virava lobizome. Diz o autor na referida carta que esse seu tio fora miliciano, possuía tantas medalhas e condecorações que o tecido quase que desaparecia,  e que um marujo, certa feita, dissera a seu respeito: “Antes furtar esse homem, do que uma alampada de igreja”. Diz ainda que costumava contar os passos que tinha cada rua por onde passava e coisas semelhantes. E declara:

— Foi este que inocentemente padeceu a afronta de ser lobizome, e de quem muita gente contava ter encontrado em figura de porco, e que, fazendo-lhe sangue, se tinham achado com o senhor Miguel do Canto.

O lobizome, entretanto, é ainda muito mais antigo e era popular na Espanha medieval e outras partes da Europa. Isto tudo nos faz crer que o lobizome é uma figura internacional, muito antiga, que portugueses e espanhóis nos trouxeram e que a credulidade popular encarna em pessoas de que tem medo ou de que não gosta por qualquer razão.

Ah! os lobizomes!… Os lobizomes!…

Spalding, Valter. “Lobizome”. Jornal do Dia. Porto Alegre, 06 de março de 1960

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